CODA: A TRADIÇÃO CONTINUA
Nas décadas seguintes à desaparição da geração que fez o “samba do Estácio” — e da Mangueira, do Salgueiro, da Vila Isabel… —, a tradição da “preguiça no samba” não desapareceu. Escolho, ao sabor da memória, compositores e canções que se alinharam a esta que é a principal tradição discursiva do samba carioca — vale dizer, brasileiro.
Moreira da Silva, cantor e compositor que encarnou o personagem do malandro, compôs, desde a década de 1930 até 1995, uma profusão de sambas cujo protagonista é o malandro esperto que não quer trabalhar, engana a polícia e as mulheres que pretende conquistar (Na subida do morro e Faltava um ás no meu baralho) e sonha com uma vida burguesa sem que precise trabalhar para isso (Acertei no milhar): “Etelvina, acertei no milhar/ ganhei milhões em prêmios, não vou mais trabalhar/ eu vou dar toda a roupa velha aos pobres/ e a mobília nós vamos quebrar…”. A obra de Moreira da Silva é objeto do livro de Claudia Matos, que já citei aqui.
Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, em 1956, compuseram o famoso Pra que discutir com madame, ironizando o preconceito dos grã-finos contra o samba: “Madame diz que o samba tem cachaça, é mistura de raça, mistura de cor/ madame diz que o samba democrata é música barata sem nenhum valor/ / Vamos acabar com o samba, madame não gosta que ninguém sambe! vive dizendo que o samba é vexame/ pra que discutir com madame?”.
Também da década de 1950 é o Mambo da Cantareira, protesto contra as agruras da vida do trabalhador composto pelo baiano radicado no Rio, Gordurinha, e gravado em 1974 por Jards Macalé (Aprendendo a nadar): “Mas ninguém sabe como é que dói, ninguém entende como é que dói/ trabalhar em Madureira, viajar na Cantareira e morar em Niterói”.
Além da vertente humorística, malandra, temos no belo Sala de recepção, de Cartola, a versão lírica do repúdio ao mundo do trabalho e a exaltação poética da vida devotada ao samba: “Habitada por gente simples e tão pobre que só tem o sol que a todos cobre/ como podes, Mangueira, cantar?! Pois então saiba que não desejamos mais nada/ à noite, a lua prateada/ silenciosa, ouve as nossas canções”.
Chico Buarque, o grande continuador dos temas mais característicos da tradição do samba carioca, tem uma série notável de sambas em torno da figura do malandro. Um deles lamenta o fim da malandragem. Foi composto em 1978 para a Ópera do malandro, de autoria do próprio Chico e de Rui Guerra (A nata da malandragem): “Eu fui fazer um samba em homenagem à nata da malandragem que conheço de outros carnavais/ eu fui à Lapa e perdi a viagem, que aquela tal malandragem não existe mais”.
O malandro, depois da “modernização” do país imposta pela ditadura militar (uma contradição em termos), enfiou a viola no saco e tornou-se trabalhador: “dizem as más línguas que ele até trabalha/ mora lá longe, chacoalha/ num trem da Central”.
Quem tomou seu lugar foi a elite dos aproveitadores que se beneficiaram de todos os esquemas de apadrinhamento e corrupção do governo militar, aproveitando a falta de liberdade que impedia seus esquemas de virem a público: “Agora, já não é normal/ o que dá de malandro regular, profissional/ malandro candidato a malandro federal/ malandro com retrato na coluna social/ malandro com contrato, com gravata e tralha e tal/ que nunca se dá mal”.
No mesmo disco, Chico gravou a belíssima A volta do malandro: “Eis o malandro na praça outra vez/ caminhando na ponta dos pés/ como quem pisa nos corações/ que rolaram dos cabarés”.
Os versos finais da música celebram a imortalidade do malandro: “Deixa balançar as marés/ e a poeira assentar no chão/ deixa a praça virar um salão/ que o malandro é o barão da ralé”.
Encerro deixando vocês com a faixa completa do samba enfurecido, mas de letra irônica, que Chico compôs para o filme Vai trabalhar, vagabundo, de Hugo Carvana, em 1973. Aqui, a voz que manda o vagabundo trabalhar é a mesma que arrasa o ideal bem-comportado do pobre, porém honesto. Na letra de Chico, o ideal do trabalho duro não passa de mistificação para esconder o sacrifício do trabalhador:
Pode esquecer a mulata/ pode esquecer o bilhar/ pode apertar a gravata/ vai se enforcar/ vai se estragar/ vai caducar/ vai trabalhar/ […] / Vê se não dorme no ponto/ reúne as economias/ joga os três contos no conto/ da loteria /[…] /Cuidado com o viaduto/ cuidado com o avião/ não perde nem um minuto/ perde a questão.
Mas a exploração do trabalho, no fim das contas, não oferece uma vida ao trabalhador, àquele que foi trabalhar, se enforcar, se estragar, caducar, Chico Buarque acena com um final acabrunhante:
Passa o domingo sozinho/ segunda-feira, desgraça/ sem pai nem mãe nem vizinho/ em plena praça/ / Vai terminar moribundo com um pouco de paciência/ no fim da fila do fundo da previdência/ / Dorme tranquilo, ô irmão/ descansa na paz de Deus/ deixaste casa e pensão/ só para os teus/ / A criançada chorando/ sua mulher vai suar/ pra botar outro malandro/ no seu lugar.
(Este ensaio vai com um agradecimento muito especial ao Francisco Bosco, pela cumplicidade e pela bibliografia).
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