O SAMBA, ENTRE A MALANDRAGEM E O GOSTO DA CLASSE MÉDIA
Di Cavalcanti - carnaval - 1965
O samba, embora moralmente malvisto pela classe média e pelas elites cariocas, em função tanto de seu ritmo “de pretos” como da temática malcomportada — o elogio da orgia e da malandragem —, teve alguns apoiadores importantes no Rio de Janeiro. O jornalista Irineu Marinho, por exemplo, e Arnaldo Guinle foram grandes incentivadores do primeiro conjunto musical popular, Os Oito Batutas, organizado em 1919 por Donga e Pixinguinha, músicos negros da primeira geração de sambistas, que tinham, no entanto, formação musical de conservatório — não eram apenas sambistas improvisadores.
Humberto M. Franceschi relata que os dois músicos apresentaram-se em Paris, junto com Os Oito Batutas, por ocasião do centenário da Independência do Brasil (1922), mas não encontrou registro da passagem deles pela França. Ao ser perguntado por quanto tempo o grupo viajou pela Europa, Donga teria respondido com simplicidade: “desde que saímos até quando voltamos”.
Donga (Ernesto dos Santos, 1890-1974), por sinal, foi o primeiro compositor de sambas a se destacar da tradição comunitária, da música composta no improviso nas rodas de samba, música sem autoria e sem formato fechado, ao assinar em seu nome o primeiro samba gravado sob essa denominação, e que teria nascido numa roda de improvisos na casa da Tia Ciata: o famoso Pelo telefone, gravado pela primeira vez em 1917, tendo alcançado grande sucesso no Carnaval daquele ano.
A apropriação individual da criação coletiva, feita por Donga, foi alvo de protestos por parte de outros frequentadores da casa da Tia Ciata, inclusive o famoso Sinhô (João Barbosa da Silva, 1888-1930), que alguns anos mais tarde se tornaria o mais conhecido compositor popular, apelidado de “Rei do Samba”.
Faço uma digressão para lembrar o episódio criado ou inventado por Júlio Bressane em seu filme O mandarim (1997), sobre a vida do cantor Mário Reis. Há uma cena em que Reis sobe o morro e vai se encontrar com Sinhô, em seu barraco na favela. Ao perguntar por que ele, o “Rei do Samba”, ainda não se mudara do morro para o asfalto, o compositor (representado por Gilberto Gil) teria respondido: “É que a glória, meu filho, é de um tremendo mau gosto”. Apesar da modéstia atribuída por Bressane ao “Rei do Samba”, quando Donga tomou para si as glórias de ter sido autor de Pelo telefone, Tia Ciata, Sinhô e outros sambistas publicaram uma carta no Jornal do Brasil (04/02/1917) protestando contra a apropriação indébita.
A resposta de Donga revela o fim da era em que a música era entendida como brincadeira sem dono e sem futuro: “Recolhi um tema melódico que não pertencia a ninguém e o desenvolvi…”. Em outro depoimento, também recolhido por Sandroni[14]: “ofereceu-se a oportunidade […] porque a hora era aquela”.
Que “hora” era aquela? Como se verificará a seguir, foi o momento da passagem do samba ingênuo, coletivo e pedestre ao samba autoral, com partituras vendidas para fazer sucesso no Carnaval e, logo mais, ser cantadas nas rádios e gravadas em discos. Anunciavam-se o fim do sambista espontâneo e indiferenciado do grupo que se unia para brincar e o nascimento do sambista profissional, do samba moderno “com autor, gravação, acesso à imprensa, sucesso no resto da sociedade”[15]. Nascia o samba-mercadoria no Brasil. E que, mesmo assim, não deixava de se identificar com a malandragem, como veremos.
A letra de Pelo telefone contém uma alusão maliciosa à promiscuidade entre a polícia e a contravenção. O evento que a motivou foi o episódio em que repórteres de A Noite instalaram uma roleta no Largo da Carioca, em frente à sede do jornal, e durante um dia inteiro convidaram os passantes a apostar sem ser incomodados. No dia seguinte, a provocação foi publicada na capa do jornal: “O jogo é livre no Rio de Janeiro”. A primeira versão de Pelo telefone, mais ingênua, dizia: “O chefe da folia pelo telefone mandou me avisar/ que com alegria não se questione para se brincar”. Depois da provocação feita pelos jornalistas de A Noite, surgiu a versão mais conhecida até a atualidade: “O chefe da polícia pelo telefone mandou me avisar/ que na Carioca tem uma roleta para se jogar”. A autoria coletiva e popular do samba, a agilidade com que ele se inseria na vida da cidade e a comentava na forma da tradição oral — quem conta um conto aumenta um ponto — fica evidente na história dessas duas versões. É importante dizer que a criação coletiva era a marca dos primeiros sambas, compostos de improviso pelos participantes de uma festa ou de uma roda de samba, ao ritmo de palmas, sem preocupação autoral e sem exigência de coerência ou continuidade entre as “partes” do samba, que se emendavam livremente de acordo com a dinâmica do improviso coletivo. O samba Pelo telefone é composto de três partes, cada uma com melodia e versos independentes das outras, o que constitui a marca das criações improvisadas nas rodas de samba. A terceira parte também teve a letra alterada, dessa vez para denunciar a “traição” de Donga. A letra original dizia: “Tomara que tu apanhes/ pra não tornar fazer isso/ tirar amores dos outros/ depois fazer seu feitiço”. Na carta de protesto publicada no Jornal do Brasil, Sinhô e Tia Ciata mudaram os dois últimos versos para: “[…] assinar o que é dos outros e esquecer o compromisso”.
A ausência de relação temática e musical continua nas outras partes de Pelo telefone. Depois da primeira quadra, outras estrofes teriam sido acrescentadas pelos participantes da roda de samba, sem nenhuma relação de continuidade entre elas.
“Ai, ai, ai, deixa as mágoas para trás, ó rapaz/ ai, ai, ai, fica triste se és capaz e verás/ / olha a rolinha, sinhô, sinhô, se embaraçou, sinhô, sinhô/ pobre avezinha, sinhô, sinhô, nunca sambou”. No final: “Mas este samba/ é de arrepiar/ põe a perna bambia/ mas faz gozar”.
Malandragem também é “roubar” para si a autoria de uma criação coletiva. No entanto, o próprio Sinhô, depois da desavença com Donga (que não chegou a provocar rompimento entre os dois), defendeu a apropriação individual de temas coletivos dizendo: “Samba é que nem passarinho: é de quem pegar”.
O que cantavam os “passarinhos” do samba nos céus da Pequena África, nas décadas que se sucederam à abolição da escravatura? Acima de tudo, o valor da preguiça contra a obrigação do trabalho. Vejamos uma sequência de sambas da primeira fase (1919 -1927), de autorias não muito bem determinadas, surgidos nos quintais das “tias” ou no terreiro do Estácio. Seus autores? Donga, Sinhô, Heitor dos Prazeres, João da Baiana. Na gravação que encontrei, estão assinados por Sinhô.
“Não se deve amar sem ser amado/ é melhor morrer crucificado/
Deus me livre das mulheres de hoje em dia/ desprezam homens só por causa da orgia!”
“Gosto que me enrosco de ouvir dizer/ que a parte mais fraca é a mulher/ mas o homem com sua fortaleza desce da nobreza e faz o que ela quer. / / Ora vejam só, a mulher que eu arranjei/ ela me faz carinho até demais/ jurando ela me pede, meu benzinho/ deixa a malandragem se és capaz…”
“A malandragem eu não posso deixar/ juro por Deus, e por Nossa Senhora/ que é mais fácil ela me abandonar, meu Deus do Céu, que maldita hora”.
Essa pequena sequência de sambas, que na minha infância ouvia meus tios maternos cantarem ao violão, emendando um ao outro como uma única composição, são na verdade três sambas amaxixados de autoria coletiva, gravados em nome de Sinhô. As invenções coletivas prevaleceram até que as gravadoras começassem a comprar dos sambistas essas criações e gravá-las com o nome dos supostos autores. Com frequência, a autoria ou coautoria era do cantor Francisco Alves, que comprava os sambas para gravar e colocava seu nome, na melhor das hipóteses junto ao do compositor.
Os sambas acima, bem conhecidos e gravados como sendo de Sinhô, defendem a orgia e a malandragem contra a tendência disciplinadora das mulheres, que se rebelavam contra a boemia e lutavam para ver seus companheiros pegar no “batente”. A alegre recusa do sambista em obedecer aos pedidos da amada (“e mais fácil ela me abandonar”) cativa o ouvinte, que se esquece de que a mulher sempre pagou pelos excessos do companheiro malandro.
O ponto de vista da mulher que dá duro no batente, preocupada com o que dar de comer aos filhos enquanto o homem escapole de casa e some na orgia, também é tema de alguns belos sambas. Alguns são cheios de amorosa resignação, como Camisa amarela de Ary Barroso, referência canônica do tema da “mulher de malandro” retomado por Chico Buarque na década de 1960 no belo Com açúcar, com afeto.
A mais triste dentre as canções que apresentam o ponto de vista da mulher do malandro eu aprendi com minha mãe, e nem no Google consegui achar o compositor:
Isso é papel, João/ papel que se faça/ com essa carestia/ jogar meu dinheiro no chão/ / Olha pros neguinhos/ barriga vazia/ coquinho pelado, roupinha surrada/ pezinho no chão/ / Eu levanto às cinco horas/ João vira pro outro lado/ João dorme noite e dia/ João está sempre cansado/ / Eu lavo pra freguesia/ batendo, esfregando sabão/ mas meus olhos verte água/ quando eu lavo a roupa de meu nego João.
Duas décadas mais tarde, já atendendo aos apelos de bom comportamento feitos pelo DIP durante o Estado Novo, Se você jurar, de Ismael Silva e Nilton Bastos (1931), propõe um acordo com a mulher — só vale a pena deixar a orgia por um amor sincero: “Se você jurar que me tem amor/ eu posso me regenerar/ mas se é para fingir, mulher/ a orgia assim não vou deixar”.
Notas:
- 14 Carlos Sandroni, op. cit., p. 120.
- 15 Idem, ibidem.
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