quarta-feira, 6 de maio de 2026

A PREGUIÇA NA CADÊNCIA DO SAMBA por Maria Rita Kehl - 5

 BOEMIA, MISÉRIA E MELANCOLIA


Di Cavalcanti - roda de samba

Foi triste o destino dos sambistas da segunda geração, que viveram na pele o personagem do malandro e abraçaram a “orgia” como modo de vida: muitos deles tiveram mortes precoces. A folia dos sambistas da antiga geração parece inocente diante da orgia dos malandros das décadas seguintes. Sandroni escreve, a esse respeito, que “entre os sambistas do estilo antigo, que no início dos anos 1920 já desfrutavam uma posição profissional relativamente boa, o único que morreu de tuberculose foi Sinhô, aos 42 anos[28]. Pixinguinha, João da Baiana, Donga e Caninha chegaram inteiros à casa dos setenta anos, com cachaça e tudo”[29]. A tuberculose matou muito mais sambistas da segunda geração, talvez porque a maior concentração urbana na região central do Rio, mesmo depois da reforma de Pereira Passos, além da falta de políticas de saúde pública por parte do Estado, tenha tornado a vida dos pobres ainda mais insalubre do que no início do século[30].

É possível também que a segunda geração de sambistas já vivesse muito distante das tradições religiosas africanas, do amparo formado pela coesão do grupo recém-chegado à cidade e pela presença familiar das “tias” e dos negros mais velhos que, de alguma forma, protegiam os sambistas da primeira geração do abandono e criavam algum limite aos excessos da vida boêmia. A prostituição, foco de transmissão de doenças, também não estava tão difundida no final do século XIX na antiga Pequena África como a partir da década de 1920, que incluiu a chegada ao Rio das chamadas “polacas”, mulheres pobres fugitivas da guerra e das perseguições antissemitas, na Europa. A insalubridade e a violência da vida urbana mataram precocemente muitos sambistas.

Noel, como já se sabe, morreu tuberculoso aos 26 anos; três de seus parceiros, Canuto, Antenor Gargalhada e Grandin, morreram da mesma doença antes dos trinta anos. Na turma do Estácio, Rubem Barcelos, irmão de Bide, e Nilton Bastos, parceiro de Ismael, morreram tuberculosos, o primeiro com 23, o segundo com 32 anos. Brancura morreu louco aos 27 anos e Baiaco, aos 22, de úlcera.

A violência ceifou outras vidas, como a de outro parceiro de Noel, Ernani Silva, atirado do alto do morro da favela por “adversários desconfiados”. Mano Edgar foi assassinado numa briga de jogo.

Cartola, que chegou aos 72 anos, respeitado pelos amantes do samba, por duas vezes caiu na marginalidade e desapareceu da Mangueira, por conta de dívidas, cachaça e, dizem, abuso de cocaína. Ismael Silva também teve a sorte de morrer reconhecido, aos 73 anos. Mas, na juventude, passou por um episódio de decadência e desapareceu da vida pública depois de ter sido preso, entre 1935 e 37, por atirar no amante da irmã, que batia nela. Outra vez, já famoso, foi preso em Paquetá por trapacear no jogo, mas foi reconhecido por um policial que admirava seus sambas e o comissário o soltou. De acordo com o jeitinho bem brasileiro, Ismael não foi inocentado da acusação de trapaça, mas deixou a prisão na condição de compositor e, evidentemente, amigo de um policial.

Mas ele ainda teve a oportunidade de apresentar-se em São Paulo, no Teatro Municipal e no Palácio dos Campos Elíseos, em 1928-29, trazido por Oswald de Andrade, que se encantara ao descobrir seus sambas no Rio de Janeiro.


Notas:
  • 29.Carlos Sandroni, op. cit., p. 182.
  • 30. Outro de meus bisavôs, o médico higienista Belisário Penna, dirigiu a operação de saneamento na região do mangue, no Rio de Janeiro, no início do século XX.

Fonte:

https://artepensamento.ims.com.br/item/a-preguica-na-cadencia-do-samba/

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