sábado, 5 de junho de 2010

UMA ESPREGUIÇADEIRA...

Não à toa se chama espreguiçadeira. Não à toa amolda nosso corpo, na lassidão de tarde compridas, num jardim de flores perfumadas, num fundo de quintal, numa sala carpetada... Não à toa faz-nos sonhar com ledos tempos de infância, interior, cheiro de café de coador, broa de milho, carinho de mãe. Não pode haver lugar melhor para sonhar: uma espreguiçadeira feita de madeira e lona... leve, colorida e simples, como a vida devia ser, assim, cheia de preguiça.



terça-feira, 18 de maio de 2010

A PREGUIÇA, SEGUNDO LA ROCHEFOUCAULD



De todas as paixões a que nos é mais incógnita é a preguiça. É a mais ardente e a mais maligna de todas, ainda que a sua violência seja imperceptível e que os seus danos se escondam. Se observarmos com atenção o seu poder, notaremos que ela se torna sempre mestra dos nossos sentimentos, dos nossos interesses e dos nossos desejos. Ela é a demora que tem a força para fazer parar os maiores navios, é uma calmaria mais perigosa para as grandes empresas do eu do que os bancos de areia e do que as maiores tempestades. O repouso dado pela preguiça é uma sedução secreta da alma, que pára de repente as lutas mais inflamadas e as resoluções mais obstinadas. Enfim, para se dar uma verdadeira ideia desta paixão, é preciso dizer que a preguiça é como que um estado de beatitude da alma, consolando-a das suas perdas e ocupando o lugar de todos os bens.

La Rochefoucauld, in 'Reflexões'

segunda-feira, 3 de maio de 2010

DIA DE PREGUIÇA



hoje não, amor
que é meu dia de preguiça

sim, eu sei do que tu gostas
eu sei bem como tu gostas
e daqueles jeitos todos
tu me dás, depois, muito cansaço

então, hoje não, amor
que meu dia é de preguiça

sim, eu sei que promessas
foram essas,
que beijos foram depregados
e grudados
e tudo o mais
mas, e depois, amor, e depois?

não, é melhor não, que hoje
é meu dia de preguiça

gosto, sim, amor, quando tua
língua me percorre, quando
tuas umidades me esquentam
quando nua
te abres e te abandonas,
mas, enfim, hoje
não que eu não queira
não que eu não deseje
mas, enfim, é sim, meu dia
meu dia de preguiça

e por ser hoje o meu dia
de preguiça, vem aqui perto
e deixa
que eu te veja, apenas,
que te olhe
que me molhe
só com o pensar
sem tocar,
sem outro tesão
que o dos olhos

claro, amor, amanhã
de manhã, talvez
mas, sim, com certeza,
com absoluta certeza,
amanhã à tarde,
que hoje...

hoje é meu dia de preguiça



Isaias Edson Sidney

quarta-feira, 31 de março de 2010

AI! QUE PREGUIÇA...



"Ai! que preguiça...", desabafo-chave que percorre a rapsódia de Mário de Andrade, Macunaíma o herói sem nenhum caráter (1928), sugere na sua aparência marcas de uma certa indolência nativa associada também ao prazer carnal, tendo alcance limitado. Seria assim uma expressão que à primeira vista se encerraria em si mesma. Entretanto, há razões para conjecturar que, ao cunhá-la, Mário de Andrade teve motivações mais complexas, ligadas a seu interesse pelas manifestações do caráter nacional enraizadas na língua. Preocupado em se aproximar de um padrão linguístico que expressasse a identidade cultural brasileira, o escritor pode muito bem ter se atraído pelo recurso sonoro e avançado em muitas direções nessa expressão que forjou e emprestou para desafogo do herói Macunaíma no percurso da rapsódia.

Essa complexidade subjacente que a expressão acolhe tem um rastro na obra do Padre Anchieta, leitura conhecida de Mário de Andrade. Na carta em que faz "a descrição das inúmeras coisas naturais, que se encontram na província de S. Vicente hoje S. Paulo", em fins de maio de 1560, Anchieta observa: "Há outro animal (que os índios chamam Aig, e nós 'Preguiça' por causa de sua morosidade realmente vagarosa [...]".Além da interjeição "ai", o desabafo abriga elementos sonoros que, sem dúvida, fazem reavivar a explicação de Anchieta: Aig ... Preguiça. Dicionários etimológicos, de zoologia e não especializados trazem diversas grafias transliteradas do tupi como sendo equivalentes ao substantivo "preguiça": ai, aí, ahú, aig, aígue. O filólogo Antenor Nascentes registra que esse vocábulo tem origem onomatopaica, traduzindo o som emitido pelo animal que "articula um a fechado, muito prolongado, seguido de i curto e aspirado". A Mário de Andrade, poeta, professor de música, crítico, e pesquisador interessado em zoofonia não devem ter escapado as possibilidades de exploração desse amálgama entre o tupi e o português, abrindo espaço para especular que o refrão não se resume a uma simples interjeição individual, mas pretende reforçar, na mestiçagem linguística e na sonoridade musical, mais um traço expressivo da mescla da nacionalidade. Em Macunaíma, na expressão elaborada de forma poética ecoaria, portanto, o som emitido pelo bicho preguiça, animal emblemático, totêmico, paradisíaco, no entender de Mário de Andrade. De um lado o ai (aig) emaranhando-se nas raízes primitivas de Pindorama e irmanando-se ao ócio criador (sublimado nas artes). Esse ócio tão bem diferenciado por Mário de Andrade em seu artigo de 1918, "A Divina Preguiça", difere daquele sentido de preguiça que traduz a indolência e marca o improdutivo, o inoperante:"Forçoso é continuar, para que o idealismo floresça e as ilusões fecundem, a castigar os que se aviltam no 'far niente;' burguês e vicioso e a exalçar os que compreenderam e sublimaram as artes, no convívio da divina Preguiça!" E é nessa trilha do ócio-criador, propício ao florescimento da poesia, que Mário de Andrade evoca também, nesse mesmo artigo de 1918, o poema ELDORADO, de Edgar Allan Poe, como exemplo de resquício da preguiça divinizada.Vale lembrar, ainda, que as preguiças aparecem no roteiro de seu livro de viagem, O turista aprendiz (1927), no papel de - antepassados dos imaginários índios Do-Mi-Sol, que teriam como peculiaridade comunicar-se por meio da música. E o "turista" Mário de Andrade expande a explicação:"Também poderia por junto da tribo Do-Mi-Sol, outra tribo inferior, escrava dos Do-Mi-Sol, justamente porque falava com palavras como nós, e daí um, estreitamente de conceitos que a tornava muito inferior. Mas por intermédio desta tribo, poderei criar todo um vocabulário de pura fantasia, mas com palavras muito mais sonoras e de alguma forma descritivamente expressivas onomatopaicamente expressivas, dos meus sentidos". Nessa trilha, não se pode esquecer também que, ao se despedir da cidade de São Paulo, Macunaíma a transforma em pedra, na imagem do bicho preguiça, como que totemizando-a:"- Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são... Enxugou a lágrima, consertou o beicinho tremendo. Então fez um caborge: sacudiu os braços no ar e virou a taba gigante num bicho preguiça todinho de pedra. Partiram."O feitiço de Macunaíma resguardará no bicho-estátua sua tradição cultural, trazendo uma vez mais presente aquela "Lenda do aparecimento do homem" contada pelos índios Do-Mi-Sol. O "ai! Que preguiça..." embute, portanto, o desejo ancestral, o princípio de prazer e o de realidade, em níveis distintos, além de sugerir, entrançados na musicalidade da língua e na expressão feita, seu hibridismo e, metaforicamente, uma fratura, a consciência cindida, o traço de divisão de nossa identidade cultural.



(Este artigo, de Maria Augusta Fonseca, foi extraído, com alterações feitos pela própria autora, do ensaio A CARTA PRÁS CAMIABAS, em MÁRIO DE ANDRADE, MACUNAÍMA O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER. Edição crítica de Telê Porto Ancona Lopez, Unesco/Edusp, Coleção Archivos, 1996 (1988), pp. 229-245. Maria Augusta é professora de Teoria Literária de Literatura Comparada, na USP. Estudiosa e pesquisadora do Modernismo brasileiro, tem livros publicados sobre Oswald de Andrade e ensaios sobre Mário de Andrade.)

http://www.klickescritores.com.br/pag_materias/materias9_2.htm

sexta-feira, 19 de março de 2010

DISSE-O BEM, BERTRAND RUSSEL




"Quero dizer, com toda seriedade, que muitos males estão sendo causados ao mundo moderno pela crença na virtude do trabalho, e que o caminho para a felicidade e a prosperidade está em uma diminuição organizada do trabalho.

A moral do trabalho é a moral do escravo e o mundo moderno não precisa de escravidão."

( Bertrand Russell - Elogio ao Ócio)

quinta-feira, 11 de março de 2010

AH! UM BOM COCHILO!




Não tem hora, não tem lugar, não tem idade!